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Cláudio Marinho   
(cmarinho@   
recife.softex.br)  
 
El Arte del Coaching Profesional   
Venezuela/Brasil, 1996/97  
Roteiro para apresentação de distinções  
do livro "Ontología del Lenguaje", de Rafael Echeverría,  
Santiago de Chile, Dolmen Ediciones, segunda edição, 
1995 (livro-texto do curso "El Arte del Coaching Profesional", 
de formação de coaches ontológicos, promovido pelo 
"The Newfield Group") 

Cláudio Marinho 
Coach Ontológico Certificado 
(cmarinho@recife.softex.br; 
http://www.recife.softex.br/cmarinho) 

Índice 
Linguagem e seres humanos 
Inquietude, petições, ofertas e promessas 
A distinção entre afirmações e juízos; fundando juízos 
O ato de escutar 
Transparência, quiebres e ação 
Quiebres e desenho de conversações 
A reconstrução das práticas sociais como jogos lingüísticos 
O que é o poder? Poder e linguagem  
Estados de ânimo e emoções 
Quatro estados anímicos básicos 
A persona é um fenômeno lingüístico 

Anexos 
La Biología del Conocer (Humberto Maturana) 
La Biología de las Emociones (Humberto Maturana) 


Linguagem e seres humanos 
"A linguagem não é o foco nem a preocupação principal da ontologia da linguagem. Seu interesse principal são os seres humanos." (Rafael Echeverría, "Ontologia del Lenguaje", p. 36)  

Atos linguísticos básicos  

"Quando falamos, não só descrevemos uma realidade existente, também atuamos. A linguagem é ação."(R.E.) 
  • Afirmação 
  • Declaração 
  • Promessa 
    • Oferta + Declaração de aceitação 
    • Petição + Declaração de aceitação 
Afirmações 
  • Falam sobre o mundo 
  • Distinções compartilhadas em uma comunidade 
  • Podem ser verdadeiras ou falsas 
  • Compromisso: apresentar evidência, testemunho 
  • Ex.: "Hoje é sábado." 
Declarações 
  • Geram uma nova realidade, um novo espaço de possibilidades 
  • Acordo social sobre o que constitui poder (autoridade ou força) 
  • Podem ser válidas ou inválidas 
  • Compromisso: dispor de poder para validar a declaração 
  • Ex.: Impeachment
Inquietude, petições, ofertas e promessas  
"A ação é uma dimensão exclusiva da existência humana. (...) Não podemos descansar ... em um simples deixar fluir. (...) Ao atuar, estamos nos encarregando de algo." (Rafael Echeverría) 
  • Inquietude: aquilo que nos concerne e que nos incita à ação 
  • Inquietude: situação de insatisfação, de desassossego 
  • Inquietude: conferir sentido à vida; a outra face do poder que temos de participar da nossa própria criação; parte essencial de cuidar da nossa existência 
  • A relação entre ação e inquietude se estabelece nas duas direções - não incorrer no erro do racionalismo supondo que a razão antecede a ação 
Promessas  

Atos linguísticos que permitem coordenar ações com outras pessoas; quando alguém faz uma promessa, se compromete com outra pessoa a fazer alguma coisa no futuro 

As promessas se compõem de: 

Elementos  
  • um orador 
  • um ouvinte 
  • uma ação (condições de satisfação) 
  • um fator tempo 
Processos  
  • fazer a promessa (comunicativo) 
  • cumprir a promessa (comunicativo ou não) 
Ações linguísticas  
  • Oferta + Declaração de aceitação 
  • Petição + Declaração de aceitação 
Domínios  
  • sinceridade: compromissos e conversações públicos = compromissos e conversações privados 
  • competência: condições de execução efetiva de quem se compromete 
A confiança se vê afetada quando falta qualquer um desses dois fatores, sinceridade ou competência 



A distinção entre afirmações e juízos; fundando juízos  

Afirmações 
"As afirmações operam dentro de um determinado espaço de consenso social (...) Toda comunidade cria um "espaço declarativo" consensual no qual seus membros podem formular afirmações.(...)A linguagem das afirmações é uma linguagem que se submete a um mundo existente." (Rafael Echeverría) 
  • verdadeiras ou falsas 
  • envolvem compromissos de quem as faz de prover evidências, testemunhos 
  • linguagem dos fenômenos ou dos acontecimentos (hechos) 
Juízos 
"Pertencem à classe dos atos linguísticos que chamamos declarações. (...) A realidade que geram reside totalmente na interpretação que provêem. Eles são inteiramente linguísticos."(R.E.)  
  • válidos ou inválidos, dependendo da autoridade de quem os declara 
  • fundados ou infundados, dependendo da forma como se relacionam com o passado 
  • servem para desenhar o futuro; permitem que nos movamos no futuro de uma maneira mais efetiva 
  • têm uma conexão com a ação, o que permite que, ao mudar os nossos atos, através do aprendizado e da inovação, mudemos também os juízos 
  • daí o risco de confundir juízos e afirmações sobre as pessoas - afirmações são como qualidades irremovíveis, levadas ao futuro, impossibilitando uma coordenação eficaz de ações com essas pessoas 
Fundando juízos 

Para fundar juízos, temos que verificar as seguintes condições: 
  1. especificar o âmbito de ação no futuro sobre o qual se aplicam os juízos; 
  2. definir os padrões de avaliação (históricos, sociais, de alguma tradição) usados na emissão dos juízos 
  3. referir o domínio de observação para os quais são válidos os nossos juízos 
  4. gerar afirmações em relação ao que estamos julgando (segundo os padrões de avaliação definidos e no domínio especificado) 
  5. rever os fundamentos dos juízos contrários.
 

O ato de escutar 
"É o escutar, não o falar, que confere sentido ao que dizemos. (...) Dizemos o que dizemos, e os demais escutam o que escutam." (Rafael Echeverría)  

Escutar = ouvir [ver, cheirar, provar, sentir] + interpretar 

Âmbitos do escutar 
  1. da ação: atos locucionários (o que se disse), ilocucionários (a ação compreendida) e perlocucionários (o efeito da ação); ação global envolvida e ação associada; 
  2. das inquietudes: onde nos encarregamos uns dos outros; onde se confere sentido à ação; "as inquietudes não moram no orador mas em quem escuta" (R.E.) 
  3. do possível: onde o falar/escutar rearticula o mundo como espaço de possibilidades
  4. da alma humana: onde escutamos o ser que se constitui ao dizer o que diz 
Abertura para o outro, postura fundamental do escutar: "a aceitação do outro como um legítimo outro" (Maturana) 

Ser ontológico - o modo de ser que todos os seres humanos têm em comum, cada ser humano é a expressão total do fenômeno de ser humano. 

Persona - as diferentes maneiras através das quais os distintos indivíduos realizam sua forma comum de ser (como seres humanos) 

Dois movimentos básicos para escutar:  
  1. distanciarmo-nos de nós mesmos (abertura) 
  2. reafirmarmos que compartilhamos uma forma comum de ser com o outro. 
"Todo outro é o reflexo de uma alma diferente no trasfondo do nosso ser comum." (R.E.) 

Domínios de observação para um escutar efetivo 
  1. contexto: que define o que esperamos escutar; 
  2. estado emocional: que nos permite distinguir a nossa predisposição para a ação (e a da pessoa que escutamos); 
  3. história pessoal: que abre ou fecha o nosso escutar; 
  4. confiança: identidade que se forma mutuamente, ou não, entre pessoas que conversam; 
  5. trasfondo histórico: discursos históricos (metanarrativas) e práticas sociais, estas determinando o que é relevante para nos encarregarmos das nossas inquietudes. 


Transparência, quiebres e ação 
"A transparência - a atividade não-reflexiva, não pensante, não deliberativa, a ação com um mínimo de consciência - constitui a base e a condição primária da ação humana." (Heidegger apud Rafael Echeverría) "Só emerge a consciência do que estamos executando quando este fluir na transparência, por alguma razão, se vê interrompido: quando se produz o que chamamos de quiebre." (R.E.) 
  • concepção tradicional da ação: toda ação humana é ação racional; a razão conduz a ação; sujeito racional x mundo dos objetos (Descartes); que-fazer filosófico tomado como modelo geral da ação humana (caráter primário da razão
  • razão e linguagem: a razão é um tipo de experiência humana que deriva da linguagem; a linguagem é primária; a razão de um fenômeno não pertence ao fenômeno mas à sua explicação - ao observador, à capacidade dos seres humanos enquanto seres lingüísticos; 
  • transparência: estágio anterior à constituição da relação sujeito/objeto; ação primária não-reflexiva de cuja dinâmica pode derivar o que-fazer filosófico 
  • quiebre: interrupção da transparência, permitindo um tipo de ação regida pelos padrões da ação racional; é uma ponte entre situações de transparência; 
  • distinções de quiebre 
    • juízo: o quiebre é um juízo de que o acontecido altera o curso esperado dos acontecimentos; é, portanto, uma transformação dos nossos juízos sobre o que é possível 
    • negativo ou positivo, segundo o juízo que façamos dos seus efeitos sobre o futuro 
    • quiebre x problemas: os quiebres habitam os juízos de um observador; todo problema é sempre função da interpretação que o sustenta, que pode ser discutida (problema > oportunidade) 
    • ocorrência de quiebre: 
      • espontâneo: situações em que existe um consenso na comunidade do que se pode esperar (juízo de quiebre pertence ao discurso histórico; o observador é um portador automático) 
      • declarado: o indivíduo tem a capacidade e autonomia de declarar sua satisfação ou insatisfação, mudando o rumo de sua vida 


Quiebres e desenho de conversações  
"É através da ação que restauramos a transparência quebrada e nos encarregamos das conseqüências dos quiebres. (...) As conversações que vêm depois dos quiebres nos dirão se estamos no movendo no sentido da ação ou se ficamos no imobilismo." (Rafael Echeverría)  

Tipos de conversação que se seguem a um quiebre 
  1. de juízos pessoais: que se limitam a ajuizar os quiebres sem se encarregarem deles, podendo fazê-lo no domínio da responsabilidade (pelo quiebre), da inclusividade (âmbito particular em que acontece) ou temporalidade (conseqüências no tempo dos quiebres); 
  2. para a coordenação de ações: em que se geram ações futuras para nos encarregarmos do quiebre; normalmente têm, como ações associadas, petições, ofertas, promessas e declarações; podem não ser iniciadas (estas conversações) ou porque não sabemos que ação realizar ou porque julgamos que as pessoas não estão abertas a este tipo de conversa; 
  3. para possíveis ações: quando exploramos novas ações possíveis, quando expandimos nosso horizonte de possibilidades; pode parecer com a de juízos pessoais mas tem uma emocionalidade distinta - compromisso de mudar o rumo dos acontecimentos; 
  4. para possíveis conversações: quando se refere não ao quiebre primitivo mas ao quiebre de ser incapaz de abrir ou concluir uma conversa para a ação; exigem normalmente uma emocionalidade do respeito mútuo. 
As conversações e as relações pessoais são a mesma coisa. Uma boa relação não é uma relação sem quiebres; é uma relação em que se desenvolveu a capacidade de gerar ações que se ocupam deles de forma efetiva, encontrando um equilíbrio adequado entre conversações públicas e privadas. 

Conversações nas organizações empresariais  
"Uma empresa é uma rede estável de conversações." (R.E.) 

Aspectos da estrutura lingüística das organizações 
  1. limites: linha traçada pela linguagem através do poder de alguém para fazer uma declaração; 
  2. rede de promessas mútuas: rede interna de promessas que permite à empresa cumprir suas próprias promessas como entidade no mercado; 
  3. trasfondo compartido: o que se conhece como cultura de uma empresa, práticas sociais e standards comuns, executadas de forma transparente desde um passado comum, que lhe dão grandes vantagens econômicas, gerando condições sinérgicas; 
  4. futuro compartido: também parte da cultura mas com ênfase no futuro comum -- uma história comum acerca do que é possível e um compromisso compartilhado de realizar essa visão de conjunto. 


A reconstrução das práticas sociais como jogos lingüísticos 
"Reconstruir a forma como "fazemos" as coisas como jogos lingüísticos nos permite realçar a conexão entre nossas ações e a linguagem." (...) Ao examinar a ação, que inicialmente parecia prover a base para a linguagem, ela se dissolve novamente em linguagem." (Rafael Echeverría)  

Ação x atividade  

"A ação humana é uma atividade que é interpretada ao se fazer referência ao domínio das inquietudes. A ação humana é atividade mais interpretação. (...) É o observador quem faz com que a ação tenha sentido." (R.E.) 

Ação direta x ação reflexiva  

Distinção relacional: fixamos uma ação em um determinado nível e atuamos sobre ela - a primeira é direta; a segunda, reflexiva. Cada vez que nos trasladamos a um nível superior [de observação], transformamos em ação direta a que antes era um ação reflexiva.  

A ação reflexiva serve à ação direta (a) modificando a ação, (b) ampliando o horizonte de possibilidades no qual atuamos ou ( c) desenhando ações mais efetivas (planejando - tecnologia; definindo estratégias - política).  

Ação contingente: ação que se gera quando não dispomos de forma estabelecida para atuar  

Ação recorrente (práticas sociais): institucionalização de determinadas maneiras de enfrentar alguns acontecimentos, de se fazer as coisas, de nos ocuparmos de certas inquietações e quiebres 

Reconstrução lingüística das práticas sociais (jogos de linguagem) 

Podemos reconstruir qualquer prática social a partir das suas regras ou declarações constitutivas 
  1. de objetivo: que se referem à inquietude da qual se encarrega o jogo, inquietude que guarda relação com determinados resultados que se busca alcançar; 
  2. de existência: que especificam os elementos necessários para se jogar o jogo, bem como o âmbito espacial e temporal dentro do qual se leva a cabo a ação; 
  3. de leis de ação: que definem o proibido, permitido ou obrigatório para os jogadores ao agir 
Além disso, são distinguidas as seguintes declarações adicionais, que podem ser prescindidas no jogo mas permitem que joguemos melhor:  
  1. estratégicas: resultado do aprendizado com as experiências passadas nas quais pudemos observar as conseqüências de uma determinada ação; 
  2. para resolução de conflitos: que permitem resolver diferenças de interpretação das regras constitutivas e tratar de situações imprevistas 



O que é o poder? Poder e linguagem 
"Todo interpretação que desvaloriza o poder como fenômeno geral leva, em última instância, a uma degradação da própria vida.(...) [O poder] é um fenômeno que emerge, enquanto tal, da capacidade de linguagem dos seres humanos." (Rafael Echeverría)  

O que é o poder? 

Descrição x adscrição  

Quando descrevemos, o que distinguimos pertence àquilo que o observador observa (afirmação); quando adscrevemos, é o próprio observador quem confere ao observado o que se constitui no processo de adscrição (juízo). O poder é um juízo. 

"O poder se constitui enquanto fenômeno a partir de um juízo emitido por um observador sobre a maior capacidade de uma determinada entidade de gerar ação."(R.E.) 

Entidade - agentes (com capacidade autônoma de ação), máquinas (requerem agentes para funcionar) ou ferramentas (aumentam a capacidade de ação de um agente)  

Capacidade de gerar ação - o poder está no juízo que se emite e não na capacidade de ação que se ajuíza; o juízo não é sempre sobre a ação executada mas sobre a capacidade de gerar ação; é um juízo sobre o domínio do possível 

Diferenciada ("maior") - relativa, comparativa, podendo se referir a entidade semelhante ou a certos padrões sociais (portanto, capacidade histórica, pode variar quando variam as condições sob as quais foi ajuizado o poder). 

O poder da linguagem 

Na medida em que a linguagem é ação, a linguagem é fonte de poder. Podemos distinguir 4 domínios específicos de competência lingüística (portanto, fontes de poder): 
  1. das distinções: que nos convertem em observadores diferentes, com possibilidades de ação distintas; 
  2. dos atos lingüísticos: principalmente as declarações e petições, através das quais se exerce o poder sobre os outros (dependendo de quem as aceita); uso da força para dar respaldo à palavra (submissão); 
  3. das narrativas: bases a partir das quais atuamos no mundo, com possibilidades de ação distintas (ex.: ciência); 
  4. das conversações: através da quais podemos atuar diretamente ou ampliar nosso horizonte de possibilidades. 
Estratégias para incrementar o poder 
  1. aprendizagem: que nos permite ganhar competências que antes não tínhamos; mas não devemos esquecer que o poder não depende do que somos capazes de fazer senão também do juízo que os outros tenham de nós - o que nos leva às 3 estratégias que vêm a seguir; 
  2. sedução: gera em outros o juízo de que somos uma possibilidade para eles; persuasão, caso particular de sedução, que se baseia particularmente na lógica
  3. autoridade institucional: poder que a sociedade nos confere por ocuparmos um determinado cargo institucional, fazendo valer nossas declarações e petições; 
  4. força: capacidade de destruição como meio de submissão ou dissuasão do outro.



Estados de ânimo e emoções 
"Os seres humanos nos constituímos como tais em nossa corporalidade, nossa emocionalidade e em nossa capacidade de linguagem. (...) Estes três domínios são irredutíveis entre si, independente da possibilidade de reconstruírem-se [uns aos outros] ou de intervenção indireta [uns sobre os outros]." (Rafael Echeverría) 

Estados de ânimo x emoção  

Quando experimentamos uma interrupção no fluir da vida se produzem emoções. Estão associadas aos quiebres, interrupções na nossa transparência, mudança em nosso espaço de possibilidades. São, portanto, uma distinção que fazemos na linguagem para nos referirmos a uma mudança no nosso espaço de possibilidades a partir de determinados acontecimentos.  

Os estados de ânimo, ao contrário, são uma emocionalidade que não remete a condições específicas, vivem no trasfondo a partir do qual atuamos. O horizonte de possibilidades no qual estamos, correspondente ao estado de ânimo em que estamos imersos, é que condiciona as nossas ações. 

Observando estados de ânimo através do corpo 
  1. biologia: domínio dos componentes e relações que constituem nossa estrutura biológica; conformação cerebral e estados emocionais; desequilíbrios hormonais e estados de ânimo; estado de ânimo como fator importante para a recuperação de enfermidades; 
  2. corporalidade: comportamento físico de um indivíduo, da unidade biológica como um todo (gestos, posturas etc.); mudando nossa postura corporal também podemos mudar nosso estado de ânimo; nossas postura físicas não são inocentes. 
Intervindo nos estados de ânimo através da linguagem 

Os estados de ânimo exercem, em um domínio diferente, o mesmo papel dos juízos, abrindo possibilidade de sua reconstrução lingüística através da relação de coerência entre emocão e linguagem. Podemos procurar as estruturas lingüísticas subjacentes aos estados de ânimo. Isso nos abre um espaço de intervenção no estados de ânimo, usando a linguagem para modificar nossos horizontes de possibilidade. Portanto, estes seriam alguns pontos a serem seguidos: 
  1. observar os nossos estados de ânimo - não são atributos do mundo exterior a nós; 
  2. não somos os responsáveis por eles - enfrentá-los de forma mais leve; 
  3. tomar cuidado com as histórias que construímos sobre os nossos estados de ânimo; 
  4. buscar os juízos correspondentes a eles; 
  5. ver qual é a estrutura lingüística subjacente; 
  6. examinar os atos lingüísticos que a compõem; 
  7. buscar as ações para mudar estes atos língüísticos; 
  8. antecipar estados de ânimo recorrentes, usando repertórios (cursos de ação); 
  9. envolver-nos com pessoas para quais o nosso estado de ânimo não faz sentido; 
  10. trabalhar as posturas corporais; 
  11. intervir diretamente na nossa biologia, se for o caso; 
  12. ganhar competência para moldar os nossos estados de ânimo à nossa conveniência -não podemos evitá-los. 



Quatro estados anímicos básicos 

Fatos e possibilidades 

Existe um espaço onde as coisas vão continuar como estão, façamos o que façamos, um espaço dos "fatos da vida", um domínio dos fatos. Por outro lado, há um espaço que nos oferece possibilidades de ação, que permite mudanças - este é o domínio da possibilidades. Uma competência primordial na vida é fazer uma distinção fundada entre estes dois domínios, entre esses dois juízos do mundo. 

Na vida humana, há fatos ontológicos (constitutivos da forma de ser humana, que não podemos mudar em nenhuma circunstância), fatos como a finitude dos nossos corpos ou acontecimentos do passado, por exemplo. Há também fatos históricos, que não são inerentes à nossa condição humana, que podem ser modificados se mudam as condições históricas - os juízos de fatos ou possibilidades históricas são sempre históricos, guardando relação com as declarações que efetuamos e com as ações viabilizadas por elas. 

Do ressentimento à aceitação  

Quando lutamos contra o que não podemos mudar, quando demonstramos incapacidade para aceitar o que chamamos de fatos da vida, geramos um terreno fértil para que se desenvolva o ressentimento - um estado de ânimo que pode ser reconstruído em termos de uma conversação subjacente na qual achamos que fomos vítima de uma ação injusta, temos o juízo de que alguém nos fechou possibilidades na vida. Já no estado de ânimo da aceitação, decidimos estar em paz ("bom humor", Julio Olalla) quando aceitamos viver em harmonia com as possibilidades que nos foram fechadas - é uma expressão de reconciliação com os fatos, uma declaração de "caso encerrado".  

Para sair de um estado de ressentimento para outro de aceitação, devemos: 
  1. identificar os juízos que aparecem na reconstrução lingüística do ressentimento e fundá-los; se ainda continuar o ressentimento... 
  2. ...devemos procurar forma de declarar encerrado o caso, acabando com as nossas conversas privadas sobre o assunto 
    • ou fazendo uma recriminação ou queixa - que deteriora a nossa relação (avalancha de juízos pessoais) e portanto não resolve; 
    • ou fazendo uma reclamação, que se constitui em vários atos lingüísticos (declarações, afirmações, petições) e que pode ser aceito (gracias, caso encerrado...) ou não... 
  3. ... aí, e também no caso de perdas irreparáveis, só nos resta perdoar - cujo principal beneficiário é quem perdoa, não quem é perdoado; mas também podemos julgar que o dano é tão inaceitável que... 
  4. ... só temos a alternativa de declarar o término da nossa relação, como forma de nos encarregarmos da nossa dignidade. 
Da resignação à ambição 

Quando alguém se comporta, em um determinado domínio, como se algo não pudesse mudar, enquanto nós achamos o contrário, o estado de ânimo é o da resignação. Para essa pessoa, a resignação aparece como realismo fundamentado - não sabe o que fazer, mesmo que reconheça que as coisas poderiam ser diferentes. Já aqueles que conseguem identificar amplos espaços de intervenção para a mudança, que têm um mirada diferente para o futuro, que se comprometem com a execução de ações para construir o futuro, esses estão no estado anímico da ambição (no "sentido sano" -- Julio Olalla) 

Para sair da resignação para o estado de ambição, devemos (1) fundar o nosso juízo, olhando o que nos impede de fazer (2) petições ou (3) entabular conversações para coordenar ações, usando o repertório do desenho de conversações; para isso, podemos recorrer às (4) ações reflexivas; e podemos, finalmente, (5) aprender - através da aprendizagem podemos tranformar nossos juízos de facticidade em juízos de possibilidades.  



A persona é um fenômeno lingüístico 
"Esta forma particular de ser que somos como indivíduos (dentro da forma já particular de ser que somos como seres humanos) é o que chamamos de persona [self]. (...) Aquilo que constitui os seres humanos, o que os faz ser o tipo de seres que são, é a linguagem. Os seres humanos, postulamos, são seres lingüísticos, seres que vivem na linguagem." (Rafael Echeverría) 

Persona 

Metafísica - as pessoas possuem uma essência que não se pode mudar; temos que "descobrir" quem somos e o que "realmente"queremos na vida. 

Ontologia da linguagem - toda caracterização que fazemos de nós mesmos (e dos outros) é um juízo; os juízos não descrevem, já que não são afirmações, eles adscrevem; mais: os juízos se fundam em ações que observamos, que ocorrem num momento e domínio determinados - não podemos, portanto, tirar conclusões gerais sobre a forma de ser permanente das pessoas a partir de observações em domínios particulares.  
  • as ações não são somente uma manifestação do nosso ser mas também a forma com este ser se constitui em um processo de transformação permanente 
  • a persona é uma história sobre quem somos baseada nas ações que executamos; quando contamos essa história sobre nós mesmos, temos a nossa identidade privada; quando outros contam, conforma-se a nossa identidade pública 
  • a história da persona não se faz só de afirmações, mas também se organiza em torno de alguns juízos mestres 
  • a persona é um produto da capacidade recursiva da linguagem; mente, razão, espírito, consciências são todos fenômenos baseados na capacidade recursiva da linguagem; surgem de uma unidade biológica contínua, o corpo; a recursividade da linguagem nos faz viver como uma unidade de experiência com continuidade no tempo << + continuidade biológica = persona 
  • a persona não deve ser considerada só um princípio explicativo que outorga coerência ao que fazemos - é também um princípio ativo de coerência que se projeta nas ações que executamos (circularidade ativa entre ações e narrativas) 
  • a linguagem, entendida como o consenso de um conjunto de distinções para coordenar ações conjuntas em bases estáveis, é o que constitui uma comunidade 
Domínios básicos da persona  
  1. a persona como domínio experimental - a persona é, antes de mais nada, um domíno da experiência,; não podemos negar nem as nossas experiências nem as dos outros - não há nada que se possa fazer para mudar isso; 
  2. a persona como domínio discursivo - a persona é um princípio explicativo que dá coerência às ações que realizamos, princípio ativo de coerência a partir do qual atuamos e nos interpretamos; é uma narrativa que contamos sobre nós mesmos, sustentada por juízos fundamentais (janelas de acesso à alma humana) sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo e o futuro; cada comunidade gera suas próprias histórias acerca de si mesma (discurso histórico) e os indivíduos desenvolvem suas histórias pessoais dentro delas; 
  3. a persona como domínio performático - a persona como identidade pública se constitui também a partir da forma como fazemos certas coisas, que normalmente escapa das nossas histórias pessoais; essa maneira particular de fazer as coisas que existe em uma determinada comunidade são aqui referidas como práticas sociais
  4. a persona como domínio moral - a persona como um conjunto de declarações acerca das ações que podem, não podem e devem ser realizadas em determinadas circunstâncias; indivíduos podem partilhar as mesmas práticas e narrativas e ter limites morais diferentes; constitutivo do ser humano e, portanto, ontológico (não é uma opção); subdomínio da ética; limites que podem ser redesenhados; 
  5. a persona como domínio emocional - toda persona compreende um espaço emocional particular, com um conjunto de predisposições e ações possíveis; fundamental para a aprendizagem e para o coaching; emocionalidades para ver e para operar dentro de certos espaços de possibilidades não são necessariamente as mesmas 

Anexos 

La Biología del Conocer  
("Viviendo Juntos, Lenguaje y Biología", vídeos de conferência feita por Humberto Maturana, em Santiago do Chile, 1993, numa promoção do "The Newfield Group") 

Postulados principais  

Aceitar ou não aceitar a pergunta: "Como é que fazemos o que fazemos como observadores?" "Seja objetivo! (Quer dizer: Faça as coisas como eu digo. Eu vejo as coisas como elas são.)" (Maturana) 

Domínio da ontologia transcendental  
  • o homem com habilidades constitutivas para ver, limitado por seu corpo 
  • ao perguntar "o que é?", busco a essência do ser; a objetividade
  • lo que encuentro 
  • a existência independente do observador; a realidade 
Domínio da ontologia constitutiva  
  • meu corpo me possibilita, me constitui; 
  • ao perguntar "o que é?", pergunto o que faço para validar minha afirmação de que algo é; a objetividade entre parênteses 
  • lo que pasa 
  • a existência depende do que o observador faz; se não há operação de distinção, não há existência; o que distingo depende do que faço; múltiplos domínios de realidade 
  • a experiência surge do nada; a sua explicação (processo com mecanismo gerador + critério de validação do observador) faz referência a outra experiência; na mesma experiência, não posso distinguir entre ilusão e percepção; 
  • validação da experiência científica: ciência-poesia (descrição do que o observador deve fazer para viver a experiência a explicar + proposição de mecanismo gerador) + ciência-engenharia (dedução de outras experiência a partir das coerências experimentais do mecanismo gerador + execução para obter o mesmo que o mecanismo gerador) 

La Biología de las Emociones 
("Viviendo Juntos, Lenguaje y Biología", vídeos de conferência feita por Humberto Maturana, em Santiago do Chile, 1993, numa promoção do "The Newfield Group") 


Emoção - apreciação sobre a conduta de outro ser vivo; distinguimos classes de conduta quando distinguimos emoções; uma mudança de emoção é uma mudança na dinâmica relacional, nas possibilidades de conduta; a emoção é que dá o caráter de uma certa ação - não o movimento, por exemplo;  

Discrepância alógica - opera em distintos domínios da realidade (ideológico, religioso, político etc.), cada um com suas premissas fundamentais; não há saída fora do convite à cordura, sensatez; não depende da razão (Irlanda do Norte);  

Amor - domínio das condutas em que o outro (ou outros) surge como um legítimo outro na convivência comigo; aceitação de si mesmo como um legítimo si-mesmo; as relações sociais se fundam no amor; o amor não é um valor, uma virtude (uma dificuldade);  

Aprendizagem - processo de transformação estrutural que ocorre na convivência; as crianças aprendem a emocionar e linguagear; há dinâmicas que estabilizam um certo ser, uma certa configuração relacional (Chile de Allende); o observar nunca é arbitrário, tem uma dinâmica de referência  

Conversação - linguagem e emoção que se entrelaçam no viver; soltura de critérios que levam ao entendimento; conversar é um fenômeno humano;  

História - organização + congruência > deriva; reprodução, conservação de modos de vida; infantilização do homem, biologia do cuidado (intimidade, coparticipação); o ser humano é um animal cooperante -- sensualidade (ambição), sexualidade (intimidade), ternura (aceitação); a linguagem surge da convivência contínua e de um espaço de aceitação mútua (versus chimpanze politics - dominação/submissão) a origem da linhagem do ser humano  


 
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