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Rede Cidadão
A freenet da Prefeitura do Recife 

Cláudio Marinho(*)

Boa tarde a todos. Antes de mais nada, agradeço o convite, que me dá muita alegria, para falar aqui sobre a Internet. Eu vou começar homenageando o professor Sérgio Trindade, que fez sua brilhante palestra há pouco, antes do almoço. Eu vou acrescentar mais um argumento ao uso de transparências para falar de Internet. Ao argumento do professor de que faz as transparências à mão pra mostrar que por trás disso tem sempre um ser humano. O meu outro argumento é que essa tecnologia de datashows, canhões de projeção etc. ainda não é dominada e dá muito problema. Além disso, a qualidade de projeção ainda não permite que um auditório desse tamanho fique com as luzes acesas. E acho que o assunto que nós vamos tratar aqui é um assunto de reatamento de conversações. Para isso, é preciso estarmos nos vendo olho no olho.

O que eu vou projetar nas transparências é uma mera ilustração da conversa que defendo seja necessária termos sobre esse fenômeno da Internet. Então, para falar da Rede Cidadão, que é uma experiência na Internet da Prefeitura de Recife, eu vou antes falar de alguns aspectos desse fenômeno que acho relevante serem tomados em conta aqui, para poder entender o que estamos fazendo lá em Recife.

Uma pergunta, antes de mais nada. Quantos de nós já navegamos na Internet, usando correio eletrônico etc? Já somos a maioria, não é? Isso é bom, principalmente nessa nossa área de informação. Mas tem uns 40%, 30%, que não navegam ainda, pelo que vejo. Então eu vou evitar, em respeito a eles, aqueles termos com os quais nós internautas já estamos nos acostumando. Mas vou naturalmente "cair em tentação".

life(Transparência da revista LIFE) Quem está aí? Quem vocês vêem? Marilyn Monroe? Sim, é ela. Eu queria começar com uma metáfora, porque este fenômeno da Intenet só pode se entendido através de metáforas. Pela velocidade com que invade os nossos trabalhos, os nossos lares, a nossa vida. E a metáfora é a seguinte: vocês conhecem quem trabalha com isso, o Nicholas Negroponte, do MIT, que tem aquela historinha da economia dos bytes versus economia dos átomos? Pois esta é mais uma metáfora do MIT, é um software, que chama PhotoMosaic, que faz a conjunção de pequenos objetos para compor outros. Esta é a capa da Life de outubro, que comemora 60 anos. A foto famosa de Marilyn Monroe dos anos 50 foi composta a partir de duas mil capas da Revista Life, sem alterar absolutamente nada nessas capas! 0 que faz o software é buscar texturas, cores, sombras, formas que componham, ao fim e ao cabo, uma outra figura. É uma brincadeira dos bytes, no cyberspace, com os átomos. As capas de revistas são dadas, historicamente, há 60 anos. E compuseram, na brincadeirinha dos bytes, uma outra personalidade, ou recompuseram, ou trouxeram de volta Marilyn Moroe.

soft revolution (Transparência da Business Week - Software Revolution) O que quero dizer é que o fenômeno Internet tem a ver com o que uma revista respeitada pelos investidores americanos está chamando "Software Revolution". É uma revolução do software, isso é a Bussiness Week quem diz, não é uma revista de informática. Ela orienta investidores americanos. É uma revolução e no seu bojo tem uma tal de WEB, um dos 3 Ws daquele WWW para os 40% deste auditório que não "navegam" ainda, que muda tudo. A revista diz: senhores investidores, algo acontece. É preciso ver o que acontece, buscar onde investir. Esta WEB que muda tudo é um fenômeno de três anos. E quem navega há algum tempo sabe que três anos são uma eternidade neste meio, que há três anos atrás nós não tínhamos multimídia na Internet. Nós tínhamos caracteres ASCII puros, isto é, nem acentuação para nós brasileiros tinham.

Três anos atrás houve uma revolução no software que fez explodir a Internet como um meio editorial, como nova mídia, e esta é a ênfase que eu gostaria de dar neste foro -- como nova mídia. 0 que está acontecendo é que está aparecendo uma nova mídia . Igual foi a televisão depois do rádio, que veio depois da imprensa. É uma mídia que tem características próprias, que exige adaptações radicais dos profissionais, que somos nós, que trabalhamos principalmente com informações.Uma nova mídia que, para se ter uma idéia do que ela significa, tem um lugar em que se publicam informações, em que se fazem buscas por palavra, que fica na Califórnia, a maioria de vocês sabe, que é o AltaVista, da Digital, onde existe um computado que é acessado 20 milhões de vezes por dia! Nós conhecemos esse negócio de memória de computador, memória RAM, não é? Este computador aqui tem 8, 16 megas de memória RAM. O computador da Digital tem 8 gigabytes de memória RAM, e está à disposição de cada um de nós que, conectando em um ponto de linha telefônica e tendo acesso à Internet, poderá acioná-lo para fazer busca em toda a Internet. Em 30 milhões de sites que publicam informação na Internet. E nunca esse computador dá uma resposta. com mais de 10 segundos de demora!

telcom(Transparência da Business Week - Telecom) O AltaVista está do outro lado do mundo, nos EUA, mas está aqui. É um fenômeno que acompanha a Internet. A Internet é aqui. Não é em outro lugar. Tem problema com a infra-estrutura de comunicação? Tem. Mas é aqui. E nesse ponto. Aquele computador da Digital está aqui, nesta máquina. Este fenômeno tem a ver com outro, que é o das telecomunicações, que nos EUA já forçou a desregulamentação, permitindo a criação de um conglomerado econômico de 1 trilhão de dólares/ano. Onde estão em jogo os lucros das empresas de telefonia, transmissão de dados, a indústria do entretenimento e da televisão a cabo que, com a desregulamentação, podem estar fundidas em um negócio só, de 1 trilhão de dólares por ano. Forjado pela evolução tecnológica, pela transformação ocorrida na indústria do software, do hardware, da informática.

A conjunção das telecomunicações, com informações e computadores -- o TIC a que se referiu o professor Trindade -- é uma combinação poderosa da qual nós devemos nos dar conta, sob pena de sermos atropelados por um fenômeno do qual eu quero enfatizar ainda duas características importantes: a velocidade com que ocorre e o fato de que não respeita fronteiras. A velocidade com que está acontecendo este fenômeno de transformação tecnológica, que leva a uma mudança de paradigma técnico-econômico, que muda a maneria de fazer negócios das sociedades. 

A velocidade com que está ocorrendo e o fato de não respeitar as fronteiras -- isso deve nos preocupar. Às nossas empresas, aos nossos governos, à nossa vida, enfim. Tenho dúvidas se somos capazes, nas nossas organizações -- eu lá na minha Prefeitura no Recife e vocês em cada uma das organizações de vocês -- de acompanhar o que está acontecendo. Imaginem que temos nós a responsabilidade de definir políticas, de uma maneira geral, para o resto da sociedade. Tenho dúvida se somos capazes de acompanhar o que está acontecendo. Com a inércia institucional que temos, com as dificuldades materiais que temos. Mais ainda: com o problema cultural de abertura para esse fenômeno, como observadores dessa realidade que somos.

(Transparência sobre as exigências de uma nova institucionalidade para o poder local; para mais informações, visite http://www.recife.softex.br/cmarinho) É, portanto, com as seguintes diretrizes ou princípios básicos, que nós enfrentamos lá no Recife essa questão da Internet. Primeiro, que existe uma cidade global nesse contexto, exigindo uma nova institucionalidade para o poder local. Exige, principalmente, essa economia global, que o poder competitivo da indústria, dos serviços etc. se dê através da capacidade de agregar valores locais diferenciados. Não é homogeneização. Não é a integração ao comércio internacional, tal e qual, que nos torna competitivos. É a nossa capacidade de agregar valores locais diferenciados. Segundo, que nessa economia de redes de produção, alianças estratégicas acontecem através de projetos transfronteiras, que não respeitam fronteiras, em que os Estados nacionais têm importância relativa. Nesse contexto, pode ser muito mais forte a aliança cidade-cidade, empresa-empresa região-região.

Vejam o caso de regiões que buscam investimentos estatais ou privados, como o Nordeste, historicamente. Alguns não vão me entender se eu disser que hoje talvez seja mais importante ir buscar os departamentos de design de empresas como a Benneton e localizá-los lá no Recife -- do que uma refinaria, por exemplo. A divisão, a fragmentação da indústria em unidades de produção, nessas redes de produção, pode exigir que tenhamos uma disputa por localização de departamentos, de unidades que tenham maior valor agregado dessas indústrias, do que a indústria em si mesma. A cidade que não se der conta disso, vai estar em desvantagem nessa economia.

Os governos locais, portanto, não podem deixar de tratar a questão econômica da base produtiva urbana. O Prefeito tem que cuidar de transporte, periferia, educação, saúde. O Prefeito tem que cuidar disso sim, mas tem que cuidar da base econômica, nesse contexto de cidade global. E depois, eles podem representar -- essas Prefeituras, o poder local, o poder local governamental e não governamental, privado ou público -- podem representar um elemento calisador fundamental, nesse ambiente de negócios em redes.

webmarket(Transparência do WebMarket; para mais informações, visite http://www.civicnet.org/webmarket/info.html) Com esses princípios, e com exemplos de uso da Internet que passo a apresentar para dar maior amplitude ao que estou falando, é que nós vamos mostrar o caso da Rede Cidadão. Este primeiro exemplo foi apresentado em uma conferência que houve em Montreal agora em julho, da Internet Socety -- aliás, entidade que só vejo paralelo com a FIFA e com a ONU. Ela reunia nesse encontro 3 mil pessoas de 150 países. Com um único objetivo, pode parecer presunçoso: "vamos levar a Internet para lugares onde o homem ainda não foi". Mas acho mesmo é que tem muito romantismo, tem grande força emocional na proposta -- o que é fundamental para atingir objetivos. Esse WebMarket é um mercado púbico na Internet. Em Ohio, nos EUA, uma sociedade não-governamental e a comunidade de pequenos produtores montaram um web site em que vendem especiarias alimentares na Intemet.

Esse exemplo é para fazer o contraponto das oportunidades que traz a Internet para lugares como o Recife, como Santa Cruz do Capibaribe, uma cidade que quase ninguém conhece, mas é uma cidadezinha lá no interior de Pernambuco, que tem um valor agregado local diferenciado para as suas confecções. Faz confecções a partir de sulanca, que são as sobras, os rejeitos da indústria têxtil. Compõem roupas, peças, a partir desses restos de material e têm uma economia extremamente competitiva, de base local. Tinha, até a chegada da "seda" chinesa, que trouxe o preço para baixo. Uso o exemplo como contraponto a esse daqui do WebMarket, para levantar questões do tipo: será que a intervenção nesse caso não é ampliar o mercado, usando a Internet para isso, para esses produtos da sulanca? Eu acho que é, eu acho que tem que procurar isso daí. Uma outra experiência vem do Canadá, que tem mais a ver com o governo -- o outro exemplo tem a ver com a iniciativa privada. É a experiência do governo canadense, que tem um projeto para conectar à Internet, até 1999, todas as associações comunitárias, rurais e urbanas, todas as escolas. E já estão bastante adiantados nisso. Com o entendimento de que é preciso massificar a alfabetização digital, sem fronteiras (para mais informações, ver http://cnet.unb.ca/cap/).

Um outro fenômeno do qual também preciso falar: a Intranet. Ganhou as capas de revista nos últimos 6 meses. A Intranet é o rebatimento para dentro da empresa da tecnologia Internet. É o que alguns poderiam chamar de "ovo de Colombo". E a revista Exame definiu claramente como uma oportunidade. "A tecnologia da Internet foi para dentro das empresas. Resultado: surge uma nova e poderosissíma ferramenfa de gestão". Trago a questão da Intranet, porque, com esta nova mídiaidia, a publicação de informações dentro das nossas empresas vai mudar radicalmente. Os departamentos de recursos humanos, que cuidam da comunicação interna das nossas empresas, que não estiverem atentos a este fenômeno Intranet, vão estar desajustados à realidade empresarial e organizacional. A forma como vão circular as informações, nos próximos anos, dentro as empresas, vai mudar radicalmente com o impacto da tecnologia Internet. Não é só para fora da empresa, da organização, é para dentro. E é simples, é um ovo de Colombo. A tecnologia se expandiu tão velozmente, de forma tão avassaladora em todo mundo, que as empresas descobriram que rebatê-la para dentro, internalizá-la, integrá-la aos processos corporativos, era o caminho mais curto, não só para dar conta do fenômeno, estar junto dele, junto da onda de inovação da Internet, mas principalmente incorporar tecnologias de baixo custo aos seus processos produtivos. Isso é Intranet. Isso vai impactar todas as nossas organizações.

(Transparência da PointCast; para mais informações, visite http://www.pointcast.com) O que é a Internet, em termos de mídia? É um fenômeno que, naquela mania de americano de criar nomes com "ware" no fim, eles já criaram um "nominho", pode ser chamado contentware, e neste seminário mais uma vez peço a atenção de vocês. Conteúdo, a produção de conteúdo na Internet é outra história. Duas características principais: 1) é dinâmica, é atualizada em tempo real: 2) outra, que eu acho fundamental, é personalizada. Personalizada a ponto de ter um produto, que acho que é um bom exemplo dessa tendência, que é este aí, chama-se PointCast. Esta empresinha teve a seguinte idéia: todos nós sabemos que, quando o nosso computador está ocioso, entra um poupador de telas. As janelinhas do Windows, que vão invadindo a nossa sala em um merchandising contínuo. Esse cidadão teve a idéia de substituir esse mecanismo de auto-instalação, a janelinha do Windows, por esse produto, numa rede local das empresas. Só que é um produto vivo, inteligente, personalizado. O que ele faz? Distribuído de graça, o software você pega pela Internet, e você customiza, você personaliza a interface e vai buscar as informações que são do seu interesse. Tem os botões: indústria, notícias, condições do tempo etc. Você personaliza. Cláudio Marinho tem um perfil tal, o servidor deles tem o meu perfil, e a cada momento (que você define quando), ele conecta na Internet para buscar as informações que são do meu interesse. Ele conecta na máquina da PointCast, vai buscar a informação, e de tempos em tempos, igual à janelinha do Windows, ele joga na sua tela ociosa. Isso aí é informação personalizada em tempo real, inteligente, customizada para você. Imagine as empresas com as redes locais, o que vai acontecer, rede local, computador ligado à Internet, e você passa a emitir os seus boletins, seus informativos, através de softwares como esses. Isso já acontece hoje. É um dos produtos de maior sucesso na Internet recentemente.

(Transparência com uma página de curso na Internet; ver http://www.gartner.com/training/lcinfo.html) Uma outra área, a área de cursos. Este é um curso de Lotus Notes, que é dado pela Internet. Os departamentos de recursos humanos vão adaptar seus cursos para a Intranet, de forma bastante fácil, pois a maior parte deles já estão em algum editor de texto. Há vários conversores para a linguagem de HTML, que é a linguagem da web. Convertê-los para a Internet, para edição no web site, vai ser fácil, e cada vez mais fácil, e você vai poder ter na rede da empresa os seus cursos, o seu portfólio de cursos, disponível, para todos os empregados. Este aqui está disponível na Internet, no GartnerGroup. Você entre com a senha lá e vai buscar o curso, e vai fazendo no seu ritmo. Tem uma experiência extremamente interessante, na Universidade de Monterrey, no México, em que 4.500 professores estão sendo reciclados na tecnologia de aprender a aprender para poder ensinar, durante um ano, usando ferramentas desse tipo.

Um jornal sobre Intranets chama atencão para duas coisas. Uma, que conferências sobre Internet na área de recursos humanos já estão acordando para esse fato, sobre o uso da Intranet. E dá também a informação que 2/3 de um conjunto de empresas americanas pesquisadas recentemente vão fazer a Intranet ainda esse ano -- e não há distinção entre tamanhos de empresas, tipos etc. Não é uma questão para as grandes empresas, é para todas.

 

É nesse contexto que precisamos entender qual é o esforço que estamos fazendo lá em Recife. A Rede Cidadão (http://www.emprel.gov.br) é uma freenet, uma rede de acesso público gratuito à Internet. Tem a ver com o fenômeno da democratização da informação, que é típico da Internet. Democratização da informação, mas ao mesmo tempo, tem a ver com aquelas potencialidades locais a que me referi, que nós consideramos que é possível relevar numa mídia como essa.

Ela começou em ascii, em 93. Em 1993, lançamos o primeiro gopher de uma prefeitura na América Latina. Quem é internauta conhece o gopher, que é um gerenciador de bases de dados distribuídas em caracteres ascii, você entra por menu. E caminhando no menu, entrava nas bases de dados da Prefeitura do Recife. Depois, em agosto de 1995, com a chegada do backbone a 64 kbps da RNP ao Recife, e logo depois com a ligação a 2 megabits, nós passamos para a versão multimídia.

coquinho alto astral(Transparência com o menu principal da Rede Cidadão) A Rede Cidadão tem muitas fotografias do Recife. Tem, ainda, o nosso "Coquinho Alto Astral", símbolo do Recife, que dança frevo -- é um "gif animado". Para quem não navega, saiba que cada uma das palavras sublinhadas é um hiperlink, se você clica com o mouse vai buscar alguma coisa em algum lugar da Internet. Então, aqui na Rede Cidadão, você tem os serviços da Prefeitura do Recife, tem as home pages do nossos parceiros (eu vou falar mais sobre isso). E tem um passeio virtual da cidade, além de dicas para outros links na Internet.

Essa Rede tem uma estatística de uso que, nas vezes em que eu olho, me dá calafrios. Porque ela está crescendo, em termos de acesso, geometricamente Nós começamos de fato em agosto de 1995, na fase multimídia. E o número de acessos vem subindo em patamares. Em agosto deste ano nós tínhamos tido 137 mil hittings (acessos a arquivos, textos ou imagens) mensais. Não comparem com aqueles 20 milhões por dia do AltaVista. Aí não da para comparar. Mas, em termos brasileiros, é extremamente elevado. Vocês que conhecem a Internet brasileira sabem o que é isso. 40% desses acessos são acessos internacionais, 60% de endereços brasileiros. Já fo invertido, no começo. Com o crescimento da Internet brasileira, a proporção está virando Isso nos preocupa, essa é uma máquina muito frágil.

Mas isso não deve assombrar ninguém. Espero que todos vocês coloquem alguma coisa na Internet, essa é "netiqueta". Se você tem acesso, tem que colocar alguma coisa à disposição. É bidirecional. Eu acho que isso é que é maravilhoso. Se você entra, tem direito a acessar tudo, mas tem que contribuir com alguma coisa. Aqueles que vão instalar, nas suas instituições, uma maquininha servidora de informações para a Internet, lembrem-se, na hora que colocar no ar: ela não pertence mais à sua empresa, pertence ao mundo. Naquele momento, começam a ser conectar nela máquinas que, quando alguém a retira da rede, vão sentir a sua falta. Esse é um organismo que cresce assim, em rede. Essa máquina da Rede Cidadão tem 250 links (maquinas com apontadores) para ela. Alguém que entra em um computador lá na Califórnia, olha lá o Recife, clica ali, vem bater na nossa maquininha. Então ela não me pertence mais. E cresce o número de acessos assustadoramente. Você vai ter que fazer upgrade sempre na sua máquina. Vai ter que melhorar sempre a sua capacidade. Agora, esse é um compromisso extremamente saudável. Esse compromisso, principalmente na área de informação, e acho que nenhum de vocês vai discordar, esse compromisso de contribuir com a grande "biblioteca de Alexandria" que é essa tal de Internet.

pcr(Transparência do menu de serviços da Prefeitura) Agora vamos ver os serviços da Prefeitura na Rede Cidadão. Nós temos uma agenda cultural da Fundação de Cultura, todo mês atualizada. Quem quiser ir a Recife, e quiser saber o que vai acontecer lá agora, clica aqui. Informações sócio-econômicas da cidade, por setores. Tem o programa do orçamento participativo, investimentos da Prefeitura na periferia, está tudo na Internet. Temos uma pesquisa de preços de supermercado, que já fazemos há três anos. Você pode acompanhar os preços dos produtos por aqui. Indicadores urbanos, da Secretaria de Planejamento. Tem uma "Balcão do Cidadão", onde vários serviços estão sendo agrupados para facilitar o acesso à Prefeitura. A idéia é ter computadores em pontos de acesso público da cidade conectados à rede, daí o nome "Balcão de Cidadão". 

A Rede Cidadão permite acesso acesso público gratuito, por linha discada. É a primeira Prefeitura do Brasil que deu acesso à Internet, gratuito. Com a chegada dos provedores comerciais, nós nos retiramos, até para não fazer concorrência. As linhas são muito limitadas hoje. Agora, a prioridade é a institucionalização do processo administrativo, da relação administrativa do cidadão com a Prefeitura, pela Internet. E o primeiro passo é o serviço "Prefeitura em Casa". Você tem acesso a informações turísticas, à agenda cultural etc., mas esse é o primeiro passo para permitir, aí sim, facilidades ao cidadão em termos de relacionamento com a Prefeitura à distância. Você pode abrir de casa pela Internet, hoje, processos do seu interesse, principalmente aqueles que não exigem xerox, certificados, pagamentos no banco, mas abrir processos mais simples você já faz hoje a partir de casa. E acompanha os processos. Isso é a "Prefeitura em Casa". Durante as eleições, nós tivemos um serviço que foi muito bem visitado, com mais de 30.000 hittings, que foi o "Palanque Virtual". Nós abrimos a Rede Cidadão para todos as candidatos a Prefeito e Vereadores da cidade que quiseram colocar suas home pages, e abrimos uma Iista de discussão, para todos os cidadãos que se interessassem em discutir o que estava ali. Isso é o que a gente chamou de "palanque virtual".

(Transparência com o menu de home pages dos parceiros da Rede Cidadão) Uma coisa que fez crescer, que atraiu o interesse para a Rede Cidadão, desde o seu primeiro momento, foram as parcerias com grupos da sociedade local que quisessem fazer alguma coisa não comercial na Internet. Aqui eu tenho o exemplo de alguns. Listas de discussão.Nós temos várias, organizadas lá na cidade por quem queira, sobre diversos assuntos. Os jornais pernambucanos. Nós temos o orgulho de ser a incubadora (a Rede Cidadão) dos dois jornais locais. Antes de partirem para os seus sites comerciais, o jornal "Diário de Pernambuco" e o "Jornal do Comércio", passaram por aí primeiro. Um outro serviço muito interessante foi o do pessoal da movimento dos Mangue Boys. Eles montaram uma home page muito bem visitada. Chico Science, para quem gosta da música de lá. O "Mangue Bit" é uma home page de divulgação da música deles. Com essas parcerias a gente atraiu muito a atenção para o serviço.

arrecife(Transparência com fotos do Recife antigo). Outro muito visitado na Rede Cidadão é esse pedacinho aqui, dos passeios virtuais pela cidade. Há coisas maravilhosas aqui, em termos de fotografias do Recife. Particularmente deste bairro do Recife. Esse é um postal do século passado, para quem não conhece o Recife, é o porto da cidade.Tem imagens do carnaval, tem um belo trabalho de um professor sobre o Recife holandês. Tem vários serviços como esses.

(Transparência com diagrama de infra-estrutura de comunicações) Agora vou mostrar um pouco da nossa infra-estrutura de telecomunicações, nao vou entrar nos detalhes, mas chamar atenção para uma coisa fundamental. Desde o primeiro momento, a Prefeitura, junto com a tele local (a Telpe), o Governo do Estado e a universidade, tem trabalhado em função de se criar uma malha metropolitana de comunicação de dados em alta velocidade. Neste fim de ano, finalmente, nós estamos concretizando a conexão entre a Prefeitura e a Emprel, que é a empresa municipal de informática.

E agora vou chamar a atenção para a nossa rede escolar. Trinta e cinco das escolas já tem computadores conectados (ou sendo conectados) à Internet. E a Secretaria de Educação tem um centro de treinamento com 20 computadores ligados à Internet por uma linha dedicada, onde o Secretário está dando treinamento básico a 700 professores da rede municipal na uso da Internet. A idéia é massificar entre os professores primeiro. A experiência com os alunos, se não muda a cabeça dos professores em relação a potencialidades disso, se não se criam as condições, eu tenho um entendimento de que não vai avançar muito.

(Transparência da revista Veja com matéria sobre brasileiros no exterior - "Saudade On-line") Eu gostaria de terminar falando um pouco de poesia, porque acho que este movimento todo da Internet sem poesia não dá. Tem 1 milhão e 800 mil brasileiros pelo resto do mundo. Pelo menos 400 mil devem usar hoje, a Internet. Proporcionalmente, é muito mais do que no Brasil. Estes cidadãos estão fazendo muito pelo nosso país, muito mais do que a maioria dos nossos embaixadores. Muitos deveriam ser embaixadores honorários. Eu pelo menos indico um, que é o Sérgio Koreisha. do Oregon, EUA, que tem um site chamado "Meu Brasil", que tem duas bandeiras brasileiras logo de cara. Um site todo em inglês e talvez seja a melhor fonte de informação sobre a minha cidade, e eu digo isso embora participe dessa iniciativa, de que gosto muito, que é a Rede Cidadão. Este cidadão faz isso por amor ao Brasil. Dezenas. centenas deles fazem isso. Não sei se é o caso de entrar o governo e tentar organizar, talvez complique. O que eles fazem pelo Brasil hoje, que é montar aquelas redes transfronteiras, que permitem gerar negócios, que permitem estabelecer conversações, redes de comunicação, merece um destaque especial. É isso que faço aqui agora. Acho que tem um potencial enorme, de qualquer ponto de vista que você aborde. Ponto de vista da constituição da nossa cidadania, ponto de vista econômico, ponto de vista da democratização.

Mas o que me interessa mesmo é ousar e dizer para aqueles que tinham e têm alguma esperança, que ainda constróem utopias com relação ao que em outros tempos se chamava a internacional de vários tipos, a internacional socialista entre elas. A minha ousadia é dizer que essa Internet parece com aquela internacianal socialista que não se conseguiu fazer. Essa Internet é uma sociedade civil global em formação. Eu estou citando o coordenador da conferência 1997 da "Internet Society", que no próximo ano vai ser na Malásia. E acho que é extremamente procedente o que ele disse. Está em criação, em formação, em construção, uma sociedade civil global de grandes perspectivas que se apóia na Internet. 

Obrigado.

  


 

(*)Cláudio Marinho é engenheiro civil, especialista em planejamento urbano e em sistemas de informação para o planejamento. Trabalha como Diretor Adjunto da Empresa Municipal de Informática/Emprel, da Prefeitura do Recife, onde coordena os trabalhos da "Rede Cidadão", a freenet da Prefeitura. É também Diretor Adjunto do SoftexRecife, núcleo recifense do Softex2000, programa nacional de apoio ao desenvolvimento de software para exportação, onde se responsabiliza pela estratégia de negócios do núcleo na Internet. Sua pesquisa de doutorado em Economia (Unicamp, SP) refere-se ao ambiente político-institucional para política industrial em regiões periféricas e enfatiza a organização industrial de redes de produção. Esta palestra foi feita no dia 14 de outubro de 1996, em Brasília, no seminário "O Profissional da Informação, as Novas Tecnologias e o Futuro", promovido pelo MCT/CNPq/IBICT em parceria com o SEBRAE. A transcrição das fitas gravadas foi feita pelo IBICT e revista pelo autor (quanto à forma; o conteúdo foi integralmente mantido, acrescentando-se apenas as ilustrações e os links de referência). O paper pode ser lido também em http://www.recife.softex.br/cmarinho/. Cláudio pode ser contactado através do email cmarinho@recife.softex.br