A "Rede Cidadão" da Prefeitura do
Recife, Brasil: Lições da Experiência com a
Primeira Freenet da América Latina
Cláudio Marinho (cmarinho@recife.softex.br)
Empresa Municipal de Informática/EMPREL
Prefeitura da Cidade do Recife, Pernambuco,
Brasil
Abstract
O objetivo deste paper é demonstrar --
através do relato de uma experiência pioneira
de 4 anos com uma freenet de um governo local
numa região periférica do Brasil (a cidade do
Recife, no Nordeste) -- as oportunidades
econômicas, políticas e sociais trazidas pela
Internet para o desenvolvimento regional.
Sumário
Introdução
A Internet no Brasil
A Rede Cidadão
Perspectivas
Referências
Introdução
"... a primeira instituição realmente
global [a Internet],
uma sociedade civil global."
(Shariffadeen, chairman da INET'97 -- a
conferência
anual da Internet Society -- no seu lançamento na
INET'96, Montreal;
anotações do autor)
A "Rede Cidadão -- Informação para a
Cidadania" foi a primeira freenet da América
Latina, proporcionando acesso discado gratuito à
Internet desde julho de 1993. Começou com um
servidor gopher naquele mês, com 2 modems a 2.4
kbps, permitindo acesso às bases de dados da
Prefeitura do Recife e a outros gophers da Internet.
Naquela época, com as altas taxas de inflação no
Brasil, um serviço muito popular era uma pesquisa
semanal de preços em supermercados para ajudar o
cidadão a comprar mais barato. Quando a velocidade
das linhas nacionais aumentou (de 9.6 kbps para 2
Mbps), em agosto de 1995, o site da "Rede
Cidadão" foi lançado, provendo acesso PPP
gratuito para os cidadãos e disseminando
informações sobre o Recife e seu povo na Internet.
Com 6 linhas de acesso PPP discado -- e planos
para ter mais 20 linhas liberadas só no período
noturno para uso dos cidadãos, de forma a não
concorrer com o negócio privado dos provedores de
acesso -- o serviço teve uma taxa de acesso mensal
à suas páginas superior a 35.000 visitas em meados
de 1996, uma das mais altas do Brasil nessa época.
Aproximadamente 40% dos acessos são internacionais,
com um crescimento recente de acessos nacionais
devido à fenomenal disseminação do uso da Internet
no Brasil -- os números de usuários da Internet no
Brasil vão de 100.000 (ver [1])
a perto de 500.000, com perspectivas de se chegar a
1.000.000 de usuários neste ou no próximo ano.
A freenet também se associou a outros projetos
municipais para disseminar o uso de computadores e da
Internet entre famílias pobres da periferia urbana.
Só para mencionar dois deles: a Prefeitura tem 5
centros de treinamento para "alfabetização
digital", objetivando treinar jovens das escolas
públicas para as exigências do mercado local (sobre
isso, ver [2], que trata de
centros de teletrabalho comunitários, em que nos
inspiramos) e tem também um rede local de 20 PCs
conectados ao ponto-de-presença da Internet no
Recife, para treinar professores municipais no uso da
rede mundial. No outro lado do espectro local do
mercado de trabalho, aquele referente à mão-de-obra
especializada, a experiência da "Rede
Cidadão" também entrou em linha com a
iniciativa de apoiar pequenas empresas do Softex2000
(um programa nacional de software para exportação)
-- algumas delas com boas perspectivas de exportar
através da Internet.
Esses projetos, juntamente com iniciativas como a
de uma rede metropolitana de fibras óticas, com
tecnologia ATM, que está sendo implantada pela
companhia telefônica local em cooperação com a
universidade e a prefeitura, configuram uma
estratégia local que tentamos implementar com a
participação de organizações públicas e
privadas.
Este trabalho, então, é um relato de um
trabalho-em-progresso, objetivando compartilhar esta
experiência com outros na INET'97 que tenham a mesma
excitação que temos -- aquela de pessoas que vêem
na Internet uma nova esperança. A esperança de que
a Internet possa fazer a diferença mesmo
para aquelas regiões pobres do mundo para as quais
somos tentados a pensar que ela não se aplicaria
como uma alternativa para construir um mundo melhor.
Pois, como Noam Chomsky disse recentemente [3]:
"Se você assumir que não há
esperança, então você vai garantir que não
haverá mesmo esperança. Se você assumir que
existe um instinto de liberdade, que há
oportunidade para mudar as coisas, então existe
uma chance de que você possa contribuir para
fazer um mundo melhor. A ESCOLHA é
sua."
A Internet no Brasil
A Estratégia Nacional
Lima, Ribeiro Filho and Takahashi [1]
relatam, no seu abstract submetido e aprovado para a
INET'97, o approach adotado pelo Governo
Federal brasileiro com relação à Internet:
"Desde o estágio inicial do projeto da
RNP [Rede Nacional de Pesquisa], o Governo
Federal se comprometeu em estender a Internet
para todo o território brasileiro. Através da
implantação de um backbone com distintas
tecnologias -- incluindo fios de cobre, fibras
óticas, satélites e links de rádio -- a RNP
conseguiu estender a Internet para pelo menos uma
universidade ou centro de pesquisa em cada estado
brasileiro. Hoje, a RNP gerencia o maior backbone
da América Latina, não só em termos das
distâncias cobertas mas também em termos do
número de instituições conectadas. (...)
Atualmente na fase II, o backbone da RNP conecta
9 das principais capitais brasileiras a 2 Mbps,
com as outras capitais conectadas a uma
velocidade mínima de 64 Kbps. O modelo atual, no
qual a RNP gerencia o backbone e seus
pontos-de-presença nos estados, estimula a
criação de backbones regionais e está
permitindo a rápida expansão da Internet para
cidades pequenas e áreas rurais no Brasil.
Existem no momento mais de 100 mil usuários da
Internet no Brasil, e se espera que a rede
alcance um milhão de usuários nos próximos
dois anos."
No fim de 1996, através de esforços como esses
referidos acima e pela existênca de uma razoável
rede de telecomunicações no Brasil, aconteceu o boom
comercial da Internet brasileria. Comparados com o
crescimento dos sites educacionais, entre janeiro e
outubro de 1996, os sites .com cresceram em
1.073 %, contra "apenas" 83 % de
crescimento dos sites universitários e de centros de
pesquisa [4].
A Estratégia da Prefeitura do Recife
- No começo de 1993, na Prefeitura do Recife
-- uma cidade com 1.3 milhões de habitantes,
a capital do Estado de Pernambuco (em torno
de 7 milhões de habitantes), na região
Nordeste (onde moram 45 dos 152 milhões de
brasileiros) -- uma nova administração
começava um período de 4 anos, como
resultado de eleições recentes. No Brasil,
como em qualquer lugar, essa é uma boa
época para implementar novos projetos, para
tentar ações inovadoras. Levando em conta
que um programa do Governo Federal estava
sendo lançado para apoiar empresas
brasileiras na exportação de software em
cooperação com os governos locais, o
Prefeito do Recife autorizou a Empresa
Municipal de Informática/Emprel a participar
ativamente da iniciativa. Era o
"Softex2000", programa-irmão da
RNP. Esses dois programas juntos, um com
infra-estrutura de informação e
telecomunicações e o outro com um approach
voltado para aplicações, casaram como
uma luva com a nossa estratégia ao nível
local.
-
- Nós tínhamos uma estratégia dupla naquele
momento: por um lado, no nível micro,
tínhamos o claro entendimento de que, na
velocidade com que as coisas estavam
acontecendo na indústria da tecnologia da
informação, a nossa empresa municipal tinha
que se adaptar convenientemente, inovando e
transformando o ambiente organizacional; por
outro lado, no plano macro,
tínhamos o insight de que um novo
papel seria mais e mais demandado do governo
local -- qual seja, o de suportar a base
econômica regional de forma coerente para
enfrentar a globalização da economia. Nós
entendíamos, como Thrift [5]
havia proposto, que "ficava cada vez
mais difícil imaginar cidades como
espaços-tempos limitados, com fronteiras bem
definidas, com 'ondes' e 'aondes'."
-
- Como um rationale para a nossa
estratégia, propusemos que o principal
problema com as redes de telemática como a
Internet era a velocidade da mudança
em curso. Conhecendo os problemas da inércia
institucional, seja qual fosse a
organização, pública ou privada, nós
poderíamos esperar a tensão que seria
trazida para elas pela revolução do
software em andamento. Re-estruturação era
a palavra da moda, mas os ritmos do governo
(talvez mais bem medidos pelos períodos
administrativaos de 4 anos) são diferentes
-- a cultura político-institucional é
predominantemente conservadora. Esse era o
problema que tínhamos que enfrentar. Para
resumir o que pensávamos:
-
- no mundo da economia global, uma das
vantagens competitivas da indústrias
e dos serviços é a sua capacidade
de adicionar valores locais
diferenciados aos seus
produtos;
- na economia dos computadores
interligados em redes de produção, alianças
estratégicas acontecem em
projetos transnacionais em que
nacões-estados têm importância
relativa, sendo mais fortes as
alianças cidade-a-cidade,
empresa-a-empresa, região-a-região;
- nesse contexto, especialmente em
países do Terceiro Mundo, primeiro,
os governos locais têm que tratar
dos problemas da base econômica
urbana e, segundo,
eles podem representar os elementos
catalisadores fundamentais para
a localização de novos negócios ou
para a relocalização de unidades de
produção da indústria global
flexível.
-
- Dessa forma, consideradas as limitações do milieu
político-institucional dos governos locais e
o caráter da Internet (e da revolução do
software a ela associada), e acreditando que
essa mudança em curso no paradigma
tecno-econômico abre "janelas de
oportunidades" para a regiões
periféricas, pensamos que seria razoável
sugerir que qualquer apoio às iniciativas
locais, nos termos propostos acima, seria uma
nova e (talvez) mais efetiva maneira de
re-abordar o problema do desenvolvimento
regional.
-
- Foi isso o que fizemos, em uma escala pequena
mas com forte efeito sinérgico, com a nossa
iniciativa da "Rede Cidadão" e com
outros programas, como tentaremos mostrar
logo abaixo.
-
- Afinal, nós tínhamos a mesma opinião que
Nicholas Negroponte [6]
no seu posfácio para o "Being
Digital", tranqüilizando um amigo grego
dono de uma farmácia na sua preocupação
com o filho de 13 anos, que adorava
computadores ("não haverá trabalho
para ele nesta pequena ilha"):
"mais e mais, a Internet está se
transformando em um lugar para empreendedores
que estão criando 'indústrias globais de
fundo-de-quintal'."
-
A Rede Cidadão
Esse é o contexto para entender o que aconteceu
nesses quatro anos com o projeto da "Rede
Cidadão". Não foi, portanto, uma iniciativa
isolada. Conseguiu beneficiar-se de outros movimentos
estratégicos, como a internalização do
desenvolvimento de software com ferramentas no
estado-da-arte no nível microeconômico da empresa
municipal de informática, e pôde revigorar o
ambiente social para que se adaptasse às mudanças
exigidas pelo novo paradigma da tecnologia da
informação e comunicação -- mesmo numa região
periférica como o Nordeste brasileiro. Teremos
prazer em recebê-los em http://www.emprel.gov.br
para ver alguns dos resultados dessa iniciativa. E
por favor tenham em mente que trabalhamos da forma
descrita logo abaixo.
Parcerias: A Chave do Sucesso
Desde o começo da fase Web da "Rede
Cidadão", o projeto foi implementado como uma
iniciativa cooperada. O motto que estimulou
todos aqueles que participaram da fase pioneira,
mesmo na etapa do gopher, foi (nas palavras
introdutórias do gopher e da home page):
"A Rede Cidadão é um serviço
cooperativo não comercial com informações
econômicas, sociais, culturais e políticas
sobre o Recife e o estado de Pernambuco. Funciona
através de iniciativas descentralizadas e
coordenadas, tanto públicas com privadas. A
Prefeitura ou grupos de interesse de cidadãos
cuidam de listas de discussão, home pages no
servidor Web ou bases de dados no servidor
gopher. Parcerias nesse sentido são
bem-vindas."
As páginas Web que resultaram dessas parcerias
com grupos de cidadãos ou indivíduos sem fins
lucrativos que desejavam publicar informações sobre
o Recife, especialmente aquelas inicitativas ligadas
à rica arquitetura colonial, à cena musical e ao
belo e alegre carnaval recifense, foram a principal
explicação para um rápida exposição pública do
serviço. E aqui merece atenção um movimento
sinérgico que foi se formando: ser
pioneiros em uma nova mídia significa uma
super-exposição na mídia antiga (imprensa,
televisão), atraindo mais atenção do público,
mais iniciativas, mais exposição... e assim por
diante. É o tipo de recursividade
de ambientes em rede da qual nos apercebemos mais e
mais na Internet. Dessa forma, um trabalho
público-privado realmente cooperativo, um jogo de
"ganha-ganha" começou a crescer.
Um outro fenômeno começou a ocorrer: pessoas
jovens se engajaram na aventura do
aprendizado, talvez um dos efeitos mais
significativos que a Internet poderia esperar que se
produzisse. Novas oportunidades com o projeto de Web
sites, com a provisão de conteúdos, suporte e
operação etc. Tudo isso e os desafios de uma nova
subcultura em formação (a cibercultura) atraíram
jovens e não-tão-jovens que compreenderam ser a
energia vital dessa nova mídia algo que se pode
aproveitar para redimensionar os nossos sonhos.
Esse era o efeito que procurávamos ao desenhar a
estratégia micro/macro do projeto. Só para
ilustrar, podemos citar as mais de 600 pessoas que
foram à Emprel para buscar uma cópia beta do
Netscape que distribuímos para permitir o acesso
gratuito à freenet logo que iniciamos a fase Web
(agosto de 1995) -- e enquanto a Internet comercial
ainda estava no nascedouro. Um outro exemplo é o dos
dois jornais locais, ambos "incubados" pela
"Rede Cidadão" na fase pré-comercial dos
seus sites.
Quando aconteceu o boom da Internet comercial
brasileira, no fim de 1996, todos esses jovens e
instituições tinham uma importante vantagem
comparativa de tempo de liderança, tudo conforme
pensávamos ser o nosso papel -- levar a inovação
para early-adopters, tanto nas empresas como
na sociedade em geral. Nessa tarefa, tivemos a
valiosa colaboração do Departamento de Informática
da UFPE [7], um centro de
excelência para o estudo e pesquisa em software, com
ênfase especial na Internet.
A Prefeitura em Casa
O acesso às bases de dados da Prefeitura do
Recife -- incluindo indicadores urbanos sociais e
econômicos, o orçamento de investimentos em áreas
pobres que resultava de um processo de participação
comunitária, pesquisas de preços em supermercados e
livrarias (estas especialmente no começo do ano
escolar) etc. -- é o exemplo do que uma freenet pode
fazer para melhorar a vida dos cidadãos.
Mas queremos mais do que isso: recentemente,
estamos dando ênfase à conversão de alguns
serviços administrativos que hoje exigem a presença
do cidadão na Prefeitura para transações na
Internet. O objetivo é evitar idas dispensáveis do
cidadão à Prefeitura, e essa é a razão por que
chamamos o projeto de "Prefeitura em Casa".
E também queremos envolver a nossa freenet com muito
mais assutnos que digam respeito à cidadania. Como
nas recentes eleições municipais, quando abrimos o
nosso site para todos os candidatos de todos os
partidos para que lançassem suas home pages -- e
eles conseguiram milhares de acessos.
O Tour Virtual do Recife
Finalmente, é importante chamar atenção para o
efeito no estado emocional dos cidadãos em relação
à sua cidade quando se faz algum projeto na Internet
para mostrá-la ao mundo. Foi isso que conseguimos
quando nossos parceiros em alguns casos e o staff da
Emprel em outros implantaram belas páginas (com
ricas ilustrações) sobre o centro histórico da
cidade (influências arquitetônicas dos holandeses e
portugueses desde o século XVI) e sobre o nosso
carnaval. Isso os fez sentir orgulho de sua cidade --
e, além do mais, trouxe turistas para aquecer a
nossa economia.
Perspectivas
Ao fechar este relatório, permitam-nos resumir
algumas das questões para colocá-las em perspectiva
para um possível discussão da experiência que
relatamos aqui. Achamos ser relevante discutir:
- a velocidade de mudança na
indústria da tecnologia da informação e
comunicação
- governos locais como agentes
catalisadores nesse ambiente de
rápidas transformações
- os efeitos sinérgicos de iniciativas
inovadoras recorrentes no ambiente
da Internet
- a participação ativa de pessoas
jovens nesse processo de inovação
Gostaríamos, finalmente, de compartilhar nossa
experiência e aprender com experiências similares
que alguns de vocês presentes na INET'97 estejam
dispostos a discutir. Afinal, temos a esperança de
que a "Rede Cidadão", como uma iniciativa
público-privada que usa as facilidades da
disseminação dos computadores em redes globais,
possa contribuir com valores locais brasileiros para
essa "sociedade civil global" em
construção que é a Internet.
Vocês serão bem-vindos em http://www.emprel.gov.br!
Referências
- Lima, Ribeiro Filho and
Takahashi, The Brazilian Academic Research
Network, http://www.isoc.org/db/inet97-abs/198.6.250.17.15772.html
- Castells, M (1996), Relationships
of Advanced Information Technology, Economic
Organization, and the Social Structure
of Cities, in "Colloquium on
Advanced Information Technology, Low-Income
Communities, and the City, Dept. of Urban
Studies and Planning", MIT, March 8,
1996, session summary.
- Wired 5.01, January
'97.
- MCT/Government of Brazil, The
Global Information Society: a Brazilian
Perspective, http://www.mct.gov.br
- Apud Graham, S
(1996), Imagining the Real-Time City:
Telecommunications, Urban Paradigms and the
Future of Cities, in Westwood, S and
Williams, J (eds), Imagining Cities, London:
Routledge
- Negroponte, N (1996), Being
Digital, New York: Vintage
- www.di.ufpe.br
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