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..............................................................................-Jornal do Commercio, Recife, 07 de julho de 1997
 
  
  
  
 
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Entre ser emergente ou sub-informado 

por CLÁUDIO MARINHO (*) 

Um dos conceitos que circularam na INET 97, a conferência internacional da Internet Society, na Malásia, vindo de pessoas ligadas a organismos multilaterais (ONU, Banco Mundial), é o que se refere aos "países subdesenvolvidos" como "países sub-informados", querendo com isso denotar aqueles que se atrasam em adotar as novas tecnologias da informação. Um outro, o de "países emergentes", surgiu na conferência para descrever aqueles que fazem um esforço público-privado importante para entrar no clube das sociedades ricas em informação. 

Tive a felicidade (e o desconforto) de apresentar a "Rede Cidadão" da Prefeitura do Recife, serviço na Web que permite acesso público gratuito à Internet desde 1993, na mesma sessão em que um médico de Bangladesh relatou o seu esforço individual para dar acesso à rede mundial aos seus colegas do interior do país (que ganham em torno de 100 dólares por mês!). Felicidade (e incômodo) porque me vi habitante de um país emergente no sentido referido acima - o décimo-nono no mundo em máquinas servidoras na Internet, contando com 475 pequenas e médias empresas provedoras de acesso a mais de 500.000 internautas - na presença de um representante de um país sub-informado de 120 milhões de habitantes com apenas 6 provedores de acesso restritos à capital de Bangladesh. 

Emergente, sim senhor. Ou tomamos consciência disso ou não assumiremos nas agendas públicas e privadas, com a responsabilidade que a tarefa exige, a nossa missão de criar um modelo distinto para nos incorporarmos à nova sociedade da informação que avança rapidamente. Mais ainda quando sabemos que é preciso ir às mesas de negociação com os países do Primeiro Mundo com uma agenda bem definida, pois o "rolo compressor" americano já vem com tudo: os EUA propõem a criação de uma zona de tarifas zero no comércio eletrônico já a partir de 1998. Para os países sub-informados, "caixão". Para os emergentes, alguma esperança, desde que definam estratégias claras a médio e longo prazos. Como dizia o ministro das telecomunicações da Malásia, outro país emergente que investe pesadamente em criar as condições de infra-estrutura para se tornar um centro de excelência mundial em multimídia no ano 2020 (!), "se não há como bloquear o avanço dessa nova sociedade, vamos ajudar a implantá-la, esperando com isso criar as condições para que o país floresça na nova economia." 

Implantar, sim, um modelo de sociedade da informação no Brasil que possa ser bem sucedido ao explorar as riquezas dos valores locais na economia global, caminho de saída de uma falsa contradição entre o local e o global que vem junto com a produção e distribuição de mercadorias através de redes de computadores. Um modelo que possa se superpor à nossa industrialização incompleta (ainda nem completamos as ferrovias do modelo exportador de bens primários!), procurando coordenar a luta pelo atendimento de velhas demandas insatisfeitas do desenvolvimento regional com a priorização de novos setores -- com o da informática -- que são portadores do futuro da sociedade baseada no conhecimento. 

A metáfora da "navegação" na Internet me atrai, pois me permite usar a imagem das caravelas portuguesas, que levavam açúcar e pau-brasil e traziam pedras, num tipo perverso de "comércio" unilateral. Gosto de comparar as antigas rotas de navegação com as "rotas de navegação" das redes de satélite, que transportam bits. "Caravelas de informação" vão e voltam, 24 horas por dia, realizando um novo tipo de comércio -- um comércio multilateral. Cabe a nós colonizar essa nova geografia do ciberespaço, globalizando a nossa economia ao mesmo tempo em que permanecemos essencialmente locais, agregando valores locais aos nossos produtos e serviços. Utopia? Perguntem ao dono de pousada de Fernando de Noronha que já tem 70% das suas reservas feitas pela Internet. Ou às pequenas empresas de software pernambucanas que já exportam através da rede. 

(*) Cláudio Marinho é engenheiro-economista da URB/Recife e diretor da SoftexRecife/Cyberland. 
 

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