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TENDÊNCIAS
Entre ser emergente ou sub-informado
por CLÁUDIO MARINHO (*)
Um dos conceitos que circularam na INET 97, a conferência
internacional da Internet Society, na Malásia, vindo de pessoas
ligadas a organismos multilaterais (ONU, Banco Mundial), é o que
se refere aos "países subdesenvolvidos" como "países sub-informados",
querendo com isso denotar aqueles que se atrasam em adotar as novas tecnologias
da informação. Um outro, o de "países emergentes",
surgiu na conferência para descrever aqueles que fazem um esforço
público-privado importante para entrar no clube das sociedades ricas
em informação.
Tive a felicidade (e o desconforto) de apresentar a "Rede
Cidadão" da Prefeitura do Recife, serviço na Web que permite
acesso público gratuito à Internet desde 1993, na mesma sessão
em que um médico de Bangladesh relatou o seu esforço individual
para dar acesso à rede mundial aos seus colegas do interior do país
(que ganham em torno de 100 dólares por mês!). Felicidade
(e incômodo) porque me vi habitante de um país emergente no
sentido referido acima - o décimo-nono no mundo em máquinas
servidoras na Internet, contando com 475 pequenas e médias empresas
provedoras de acesso a mais de 500.000 internautas - na presença
de um representante de um país sub-informado de 120 milhões
de habitantes com apenas 6 provedores de acesso restritos à capital
de Bangladesh.
Emergente, sim senhor. Ou tomamos consciência disso
ou não assumiremos nas agendas públicas e privadas, com a
responsabilidade que a tarefa exige, a nossa missão de criar um
modelo distinto para nos incorporarmos à nova sociedade da informação
que avança rapidamente. Mais ainda quando sabemos que é preciso
ir às mesas de negociação com os países do
Primeiro Mundo com uma agenda bem definida, pois o "rolo compressor" americano
já vem com tudo: os EUA propõem a criação de
uma zona de tarifas zero no comércio eletrônico já
a partir de 1998. Para os países sub-informados, "caixão".
Para os emergentes, alguma esperança, desde que definam estratégias
claras a médio e longo prazos. Como dizia o ministro das telecomunicações
da Malásia, outro país emergente que investe pesadamente
em criar as condições de infra-estrutura para se tornar um
centro de excelência mundial em multimídia no ano 2020 (!),
"se não há como bloquear o avanço dessa nova sociedade,
vamos ajudar a implantá-la, esperando com isso criar as condições
para que o país floresça na nova economia."
Implantar, sim, um modelo de sociedade da informação
no Brasil que possa ser bem sucedido ao explorar as riquezas dos valores
locais na economia global, caminho de saída de uma falsa contradição
entre o local e o global que vem junto com a produção e distribuição
de mercadorias através de redes de computadores. Um modelo que possa
se superpor à nossa industrialização incompleta (ainda
nem completamos as ferrovias do modelo exportador de bens primários!),
procurando coordenar a luta pelo atendimento de velhas demandas insatisfeitas
do desenvolvimento regional com a priorização de novos setores
-- com o da informática -- que são portadores do futuro da
sociedade baseada no conhecimento.
A metáfora da "navegação" na Internet
me atrai, pois me permite usar a imagem das caravelas portuguesas, que
levavam açúcar e pau-brasil e traziam pedras, num tipo perverso
de "comércio" unilateral. Gosto de comparar as antigas rotas de
navegação com as "rotas de navegação" das redes
de satélite, que transportam bits. "Caravelas de informação"
vão e voltam, 24 horas por dia, realizando um novo tipo de comércio
-- um comércio multilateral. Cabe a nós colonizar essa nova
geografia do ciberespaço, globalizando a nossa economia ao mesmo
tempo em que permanecemos essencialmente locais, agregando valores locais
aos nossos produtos e serviços. Utopia? Perguntem ao dono de pousada
de Fernando de Noronha que já tem 70% das suas reservas feitas pela
Internet. Ou às pequenas empresas de software pernambucanas que
já exportam através da rede.
(*) Cláudio Marinho é engenheiro-economista
da URB/Recife e diretor da SoftexRecife/Cyberland.
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